O fantástico mundo dos adultos depois que as crianças vão dormir



Comer brigadeiro e ver The Office, algum episódio repetido e sem nenhum significado especial. Ainda se fosse pra ver BBB e comentar no Twitter, quem sabe, ser admitida na galera descolada por dentro dos babados. Mas era só isso mesmo, um play aleatório em um repeteco qualquer do Michael Scott e um brigadeiro feito com uma lata de leite condensado que já estava aberta na geladeira. Esse era o grandioso plano que eu tinha pra noite depois que minha filha fosse dormir. Olhando assim, nada demais. Considerando o tanto de paciência que me toma o processo pra colocar ela pra dormir, talvez automaticamente eu alcance o posto de mãe de merda.


Às vezes me pergunto se é cansaço do final do dia, porque tem hora que é quase um turno extra colocar uma criança pra dormir. Talvez seja a frustração de passar tanto tempo insistindo em uma atividade que só sai quando sai. Tem ritual, tem higiene do sono, tem historinha, tem mamá. Tudo funcionava muito bem até que parou de funcionar. E a parentalidade positiva que bebi até aqui não foi suficiente, pois só consigo pensar, ó Senhor, por que não dorme?


Veja, eu sei que o problema é que nós, pessoas adultas, queremos exigir que as crianças façam as coisas delas em nossos tempos. Mas ô saga essa de dormir. Minha mãe, muito fofa, diz que é a pequena querendo esticar o dia, aproveitar a vida boa. Lindo até que a neném não se aguenta mais de sono, mas segue firme lutando contra o status quo da hora de ir pra cama.


Lembrei de quando minha filha era recém-nascida e o conselho que eu mais ouvia era de que eu deveria aproveitar pra dormir enquanto ela dormia. A dica, no entanto, desconsidera que você nunca sabe se a pessoa que acabou de chegar no mundo vai dormir por dez minutos ou duas horas. Que as chances estatísticas de você ser o colchão onde esta pessoa está deitada são altíssimas e talvez, só talvez, você precise mesmo é fazer xixi e quem é que consegue dormir com a bexiga cheia. Resolveu fechar os olhos? Abre aí pra dar só uma conferida se a neném está respirando. Tá tudo bem, para de ser doida. Tá tudo bem. Fecha o olho, respira fundo, e pronto. A bebê acordou.


Outra coisa é a vontade de fazer alguma atividade que não seja relacionada ao universo bebê. Às vezes até lavar a louça parece mais atrativo. Daí você pode se sentir bem culpada por preferir lidar com o ralinho da pia que com seu precioso rebento. Seria um reflexo da cultura capitalista de produtividade (que, convenhamos, tem que acabar) que rege a gente pra caramba?

Não, não era vital rever Jim consolando Dwight que chorava na escada, quando o flerte de Angela e Andy começou. Me deixe que spoiler vence depois de 10 anos que o negócio foi ao ar, uma regra totalmente aleatória que eu acabo de inventar.


Quando tudo começou, com um banho ali por volta das 19h, tudo parecia nos trilhos. Revisaria uns textos, talvez conseguisse zerar meus e-mails não lidos da volta das férias, quem sabe terminaria o dia vendo uma live – que morro de preguiça – de mobilização pró-impeachment – que morro de vontade. Às 20h, ainda estava no clima de brincadeira, nem pensava em live. Às 20h30, já era, passou a hora ideal da criança dormir. Às 21h, entramos na zona do desrespeito. Passar das nove começa a invadir aquele espaço dos adultos, pô. Isso lá é hora de estar acordada, minha filha? Livro do rato. O livro do momento. Mamãe leia. É um livro sobre cocô. Cocô do coelho. Cocô da cabrita. Cocô do cachorrinho. Agora o papai leia. Agora a mamãe de novo. Quer água. Quer outro travesseiro. Quer ir pra outra cama. Quer dormir sozinha. Quer tetê. Tá bom, pode guardar o tetê.


Sei lá que horas são a essa altura, meu Jesus amado. Os e-mails foram pro saco. Nem lembro mais quais eram os textos que queria revisar. Tenho lá olho pra corrigir algo? Dormiu. Dormiu? Ufa. É tetra! Saio do quarto, quase flutuando. Doze segundos depois, escuto choro. Acordou. Já são mais de dez da noite, só me resta me entregar e dormir também. Fecho o olho, respiro fundo, já dormiu. Meu sono não vem. Levanto. Abro a geladeira, a lata de leite condensado me olha. Mexo o brigadeiro, sento pra ver televisão. Amanhã tem mais. Vou dormir com saudade.