Dica de presente para o dia das mães: reconhecer que também é delas o dia do trabalhador



©Csilla Klenyánszki


Uma instituição que não falha neste país é o calendário das polêmicas de internet. É um negócio quase religioso. Escolha (ou não) a sua, defenda (ou não) o seu ponto até o quanto aguentar e, então, pode desligar as notificações. Bloquear. Silenciar. Cancelar. Aparecer offline. No dia das mães não é diferente: dia de homenagem ou só mais uma data comercial? Pode chamar de mãe as mães de planta e mães de pet? O que deve ou não deve ser presente de Dia das mães?


Vou trazer então minha sugestão de debate pra esse mês. Em vez de brigar com aquela amiga que tem certeza que a costela-de-adão, a samambaia e a Begonia Maculata são como filhos para ela, e se a gente discutisse sobre o que a filósofa italiana Silvia Federici chama de trabalho reprodutivo?


Não tem como esquecer que antes o segundo domingo de maio chegar, passamos pelo primeiro dia do mês, dia do trabalhador. Feriado no Brasil e em tantos outros países, a data relembra uma grande greve por melhores condições de trabalho que tomou os Estados Unidos, em 1886. A principal missão da paralisação era conquistar a jornada laboral de oito horas, sem distinção de sexo, ofício ou idade. Será? Mas e as mães? Como ficaram – e ficam – nessa história?


Ser mãe é (e dá) um trabalhão. E não tem essa de limite de horas semanais, férias, horário de almoço (vale notar que no nosso país, talvez em breve ninguém tenha direito a isso, mas esta é outra história). A mãe não tem pausa para o cafezinho, a cria-chefe não dá sossego nem na ida ao banheiro. A folha de ponto é preenchida de margem a margem, rabiscada e logo vira um barco ou avião de papel. A mãe que tem sorte diz “agora não, a mamãe está trabalhando”. A culpa pode bater à porta, mas (sobre)viver enquanto há pandemia exige adaptações. Já é sorte grande ter saúde no corpo, comida na mesa, teto sobre a cabeça e terminar o começo do mês com as contas pagas.


Exaustas, com medo e com a menor taxa de participação no mercado de trabalho em 30 anos, as mães – em especial as mães negras – são as mais afetadas pela pandemia. Sem emprego, sem acesso a uma política de renda básica, sem escola, sem luz no fim do túnel. Sem rede de apoio ou suporte do governo, o trabalho que a sociedade fez questão de tornar invisível berra, escancara as desigualdades. Um cruel desamparo.


Para as mais abastadas, talvez a lista de presentes passe por robô aspirador, panela elétrica de arroz, uma roupa perfeita pro trabalho em casa que reúne o conforto de um pijama com uma fineza apresentável no enquadramento da reunião virtual, quem sabe até um creminho facial pra ver se compensa a raiva que a gente está passando (não tem pele que aguente!). E, na base da honestidade, um mimo é gostosinho, mas nada disso sequer começa a remendar o buraco. Imagina quem está na base da pirâmide da vulnerabilidade, para quem a noite de sono é tirada pela dúvida se vai ter o que comer amanhã, se o que suas crianças comeram hoje foi suficiente? Fome, eu estou falando de fome. Como se não bastasse um vírus mortal devastando nosso país, há um sem-fim de famílias brasileiras passando fome.


Em 2020, achávamos que havia muito o que aprender com a pandemia. Talvez, ela nos tenha ensinado que o futuro é feito das urgências do presente. E hoje está escancarado que ele só existe para alguns. Quem investe no futuro dessas mães (e das crias) dessas mães que estão por um fio? Reconhecimento do cuidado com a casa e com as crias como atividade produtiva, auxílio emergencial e outras medidas para garantir o bem estar social e acesso a direitos básicos, além de uma divisão igualitária de trabalho doméstico e da carga mental começariam a fazer esse mês – e essas mães – mais feliz.


A filósofa e escritora feminista Silvia Federici é uma das principais vozes a defenderem o trabalho doméstico como, bem, digamos assim... trabalho! “Eles dizem que é amor. Nós dizemos que é trabalho não remunerado”, escreve Federici em seu livro “O Ponto Zero da Revolução” (publicado no Brasil em 2019, pela Editora Elefante). Nesta e em outras publicações, Federici não parece ter a menor intenção de poupar os tijolinhos da estrutura da sociedade em que vivemos hoje. Certa ela.


Quer uma dica de presente para este Dia das Mães? Considere o trabalho de uma mãe. O trabalho que é ser mãe. Criar e cuidar de pessoas é um serviço não só à família, mas a toda a sociedade. É, sim, de se pensar em remunerar este trabalho, e é também de se pensar em novas formas de criar as crianças, criar a sociedade em que – se tivermos sorte e resistência – vamos viver no futuro. É preciso dividir as tarefas, reimaginar os papéis, repartir as preocupações. Vamos celebrar o amor – ele é lindo – mas não romantizar a sobrecarga e o sofrimento. A mãe guerreira só quer baixar a guarda.


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Para apoiar mães na pandemia:

https://www.maesdafavela.com.br/

https://seguraacurvadasmaes.org/


*A foto que ilustra o post é da série House/hold da artista Csilla Klenyánszki, ó mais: