Caminhar na direção do que a gente quer demanda demais da gente. Um trabalho novo, aprender uma língua, um hobbie, amassar um pão, preparar uma receita diferente, escrever um livro, aprender a andar de bicicleta, ter um filho, uma horta. Coisas que a gente só faz fazendo. Coisas que parecem um passo maior que a perna.


Quantos desejos se perdem pela paralisia da espera pelo momento/lugar/contexto perfeitos? Vou compartilhar um faniquito pessoal: toda vez que me passa um sopro de ideia, já transformo ela em PROJETO. O cão dessa cabeça com mania projeteira é que uma ideia logo tem que ter nome, forma, modelo de negócio, motivos pra largar tudo e viver deste novo plano que AGORA SIM pode ser minha voz no mundo. Adivinha aí o quanto minhas gavetas físicas e mentais estão cheias de ~projetos~ que não deram certo (mas também não deram errado), afinal não tiveram chance nem de começar a acontecer.

Vivo de encontrar todos os motivos do mundo pra não realizar meus trecos. Percebi que criei meu próprio #clubedaimpostora e, como sócia-presidenta, em vez de colocar a cara no sol, aproveito o céu aberto pra ficar boiando na minha piscina de inseguranças.


Mas aí eu vim conversar aqui, fora da minha cabeça, porque talvez a primeira regra de um clube da impostora seja falar sobre o clube da impostora até as associadas saírem por aí com vontade de dar um passinho. Só um. Uma unidade. 01. Hum. Um passo em direção ao desejo, seja ele qual for. Um passo já leva pra mais perto desse destino, mas não é tão grande pra que seja um caminho sem volta, mal dá pra se perder, dá tempo de mudar a rota. Quando a coragem é processo, não precisa juntar tanta e gastar toda de uma vez só.


Eu mesma já gastei toda a coragem que eu tinha hoje neste texto. Mas dei meu passinho abrindo o jogo. Caminhamos juntas?


***

Postei este texto no meu perfil do instagram e vira e mexe falo uns negócios lá. Vai que cê quer me seguir em @cacauaraujo.



Comer brigadeiro e ver The Office, algum episódio repetido e sem nenhum significado especial. Ainda se fosse pra ver BBB e comentar no Twitter, quem sabe, ser admitida na galera descolada por dentro dos babados. Mas era só isso mesmo, um play aleatório em um repeteco qualquer do Michael Scott e um brigadeiro feito com uma lata de leite condensado que já estava aberta na geladeira. Esse era o grandioso plano que eu tinha pra noite depois que minha filha fosse dormir. Olhando assim, nada demais. Considerando o tanto de paciência que me toma o processo pra colocar ela pra dormir, talvez automaticamente eu alcance o posto de mãe de merda.


Às vezes me pergunto se é cansaço do final do dia, porque tem hora que é quase um turno extra colocar uma criança pra dormir. Talvez seja a frustração de passar tanto tempo insistindo em uma atividade que só sai quando sai. Tem ritual, tem higiene do sono, tem historinha, tem mamá. Tudo funcionava muito bem até que parou de funcionar. E a parentalidade positiva que bebi até aqui não foi suficiente, pois só consigo pensar, ó Senhor, por que não dorme?


Veja, eu sei que o problema é que nós, pessoas adultas, queremos exigir que as crianças façam as coisas delas em nossos tempos. Mas ô saga essa de dormir. Minha mãe, muito fofa, diz que é a pequena querendo esticar o dia, aproveitar a vida boa. Lindo até que a neném não se aguenta mais de sono, mas segue firme lutando contra o status quo da hora de ir pra cama.


Lembrei de quando minha filha era recém-nascida e o conselho que eu mais ouvia era de que eu deveria aproveitar pra dormir enquanto ela dormia. A dica, no entanto, desconsidera que você nunca sabe se a pessoa que acabou de chegar no mundo vai dormir por dez minutos ou duas horas. Que as chances estatísticas de você ser o colchão onde esta pessoa está deitada são altíssimas e talvez, só talvez, você precise mesmo é fazer xixi e quem é que consegue dormir com a bexiga cheia. Resolveu fechar os olhos? Abre aí pra dar só uma conferida se a neném está respirando. Tá tudo bem, para de ser doida. Tá tudo bem. Fecha o olho, respira fundo, e pronto. A bebê acordou.


Outra coisa é a vontade de fazer alguma atividade que não seja relacionada ao universo bebê. Às vezes até lavar a louça parece mais atrativo. Daí você pode se sentir bem culpada por preferir lidar com o ralinho da pia que com seu precioso rebento. Seria um reflexo da cultura capitalista de produtividade (que, convenhamos, tem que acabar) que rege a gente pra caramba?

Não, não era vital rever Jim consolando Dwight que chorava na escada, quando o flerte de Angela e Andy começou. Me deixe que spoiler vence depois de 10 anos que o negócio foi ao ar, uma regra totalmente aleatória que eu acabo de inventar.


Quando tudo começou, com um banho ali por volta das 19h, tudo parecia nos trilhos. Revisaria uns textos, talvez conseguisse zerar meus e-mails não lidos da volta das férias, quem sabe terminaria o dia vendo uma live – que morro de preguiça – de mobilização pró-impeachment – que morro de vontade. Às 20h, ainda estava no clima de brincadeira, nem pensava em live. Às 20h30, já era, passou a hora ideal da criança dormir. Às 21h, entramos na zona do desrespeito. Passar das nove começa a invadir aquele espaço dos adultos, pô. Isso lá é hora de estar acordada, minha filha? Livro do rato. O livro do momento. Mamãe leia. É um livro sobre cocô. Cocô do coelho. Cocô da cabrita. Cocô do cachorrinho. Agora o papai leia. Agora a mamãe de novo. Quer água. Quer outro travesseiro. Quer ir pra outra cama. Quer dormir sozinha. Quer tetê. Tá bom, pode guardar o tetê.


Sei lá que horas são a essa altura, meu Jesus amado. Os e-mails foram pro saco. Nem lembro mais quais eram os textos que queria revisar. Tenho lá olho pra corrigir algo? Dormiu. Dormiu? Ufa. É tetra! Saio do quarto, quase flutuando. Doze segundos depois, escuto choro. Acordou. Já são mais de dez da noite, só me resta me entregar e dormir também. Fecho o olho, respiro fundo, já dormiu. Meu sono não vem. Levanto. Abro a geladeira, a lata de leite condensado me olha. Mexo o brigadeiro, sento pra ver televisão. Amanhã tem mais. Vou dormir com saudade.



O ano: 2020. O desejo: ter um blog.


Parece que foi ontem tocava este barulhinho e enquanto a internet discava, um portal para um mundo cheio de possibilidades se abria. Parece que foi ontem nada, vai. Faz uns bons vinte anos e quando penso em contar pra minha filha que certa vez aconteceu que a gente meio que tinha que ligar pra internet pra conectar. Já imagino a carinha de descrença e uma leve desconfiança de que não é possível.





Um fotolog em que a gente só podia publicar uma foto por dia e, se fosse um mero mortal, se podia receber 10 comentários por vez. Um ambiente de bate papo chamado mIRC em que tinha um negócio de canal e ban e kick, mas confesso nem lembrar mais como exatamente funciona. A gente se mandou muito scrap e testimonial (não aceita, por favor!) no Orkut. Como cantou a canção, teve scraps, e-mails e powerpoint. Teve uma jornada interwébica até aqui. Tenho pensado muito nela. Tenho pensado muito em mim nesses anos todos existindo onlinemente.


Não tô dizendo que era bom, aquele risco de Minha Mãe pegar o telefone e cair a conexão. Ou que era tranquila a regra de Meu Pai de que só podia conectar no fim de semana ou depois das dez da noite. Calma, lá. Mas fico tentando lembrar se Ana Carlinha internauta de outrora se imaginava usando a internet pra trabalhar. Enfim, estando conectada à internet o tempo todo desse jeito que é a vida hoje.




Fico pensando naquele blog da adolescência que se chamava Cogitações e talvez pensar demais é um mal que me persegue faz tanto, tanto tempo. Antes de blog, antes de conexão discada. Lembro de começar a pensar demais aquele dia que roubei uma goiaba acometida por um espírito de Chico Bento e me perdi entre o estar acordada e dormindo, refazendo meus passos, culpada. Será que deveria ter pego a goiaba? Será que aquela senhorinha da janela viu? Ela vai chamar a polícia? Pra quem ela vai contar? Cogito ergo sum. Penso logo existo. De onde Ana Carlinha de 13 pra 14 anos encontrou Descartes pra usar essa inspiração de nome de blog. Não lembro de nada do que escreveu lá. Sou péssima em backups. Sou doida da faxina (somente) de rastros de internet.


Fotolog. Orkut. Blog. Outro blog. E outro. Já deletei tanta coisa só pra não ter de encarar quem eu estava sendo em outra fase da vida. Que dó, eu tenho hoje. Queria ainda acessar esses rastros de quem já fui, eles podiam me ajudar a entender quem estou sendo. Paciência. Só me resta ser sendo gerúndio neste caminho.


Sigo pensando demais, mas tô aqui tentando perder o medo de fazer, um pouquinho.




O ano: 1999 (quase 2000). O medo: o bug do milênio.


Quando 1999 virou 2000 eu esperava uma explosão cósmica. Sem brincadeira, olhei pro céu pra saber se algum caco de cometa vinha em minha direção. Ou se alguma daquelas luzes que piscavam no céu junto às estrelas eram um sinal de invasão alienígena. No fundo, eu torcia pra ser só mais um avião. Mas o medinho estava lá.


Pois bem, o mundo não acabou (assim, literalmente, parece). Os bancos seguiram funcionando -- lembro do Jornal Nacional passar uma reportagem bastante preocupada com isso. A TV não parou de funcionar. O rádio que chiava na estrada voltou a funcionar quando chegou na cidade. Era 2000, mas as coisas seguiam funcionando como nos anos 90.

Não sei se lembro exatamente como chegamos aqui. Agora. Os carros não voam. As roupas são bem menos prateadas do que o prometido. Não precisa telefonar pra internet, mas a gente só se liga por lá. Estou fazendo um tratamento pra uma doença que eu nem sabia que ainda existia e estou estreando um blog. Peguei tempo, espaço, ou a falta de tempo e espaços (separados) e aqui estou. Uma millennial, meio das antigas, completamente bugada. Do bug do milênio, sobrevivemos todos. O bug da millennial é uma tentativa de seguir sobrevivendo a tudo isso. Bora juntas?





***


Já estava com a ideia de escrever num blog e inspirada pela #estaçãoblogagem, proposta de blogagem coletiva Aline Valek e Gabi Barbosa. Na rabeirinha da primeira semana de novembro, publico meu primeiro post sob a regência do naipe de paus."O naipe de paus está ligado diretamente à energia do fogo e basta pensar no significado deste elemento para a humanidade — nós não vivemos sem ele. É um naipe impulsionador, dinâmico e que fala da nossa criatividade. O que te sustenta? O que te estimula? O que te dá paixão?"



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